Especialista garante que Brasil deveria olhar para si mesmo e não ter medo de investir localmente

Skinner Layne é americano, fundador e Chairmain da Exosphere, uma das principais instituições de ensino com foco exclusivo na Economia Criativa.

Foi conselheiro de um fundo privado de investimento para vários projetos de energia avaliados em mais de US$ 100 Milhões e estabeleceu relações formais com fundos globais desse mercado. Além disso, Skinner já levantou em outras startups uma soma superior a US$ 10 Milhõess em investimento em fase inicial (early stage).

Ele cresceu em uma pequena cidade do Arkansas e foi anteriormente consultor Enterprise Web 2.0 para empresas da NASDAQ. Com 23 anos, Skinner foi a pessoa mais jovem dos Estados Unidos a sentar-se no conselho de administração de uma empresa de capital aberto segundo regulamento Sarbanes Oxley. Ele também teve participação política como escritor de discursos e estrategista sênior de senador americano John Boozman e desde 2008 mora em Santiago, no Chile.

O que ele pensa sobre o empreendedorismo no Brasil? Como aspirantes ao empreendedorismo podem lidar com a preguiça e os medos?

Essas foram algumas das perguntas que o Skinner respondeu para gente, neste mais novo artigo da série Especiais.

Skinner, o Brasil tem enfrentado uma séria recessão na economia desde 2013. Mesmo assim, você parece estar bem confiante ao trazer a Exosphere para Santa Catarina e investir no mercado brasileiro. Você pode nos explicar de onde vem toda essa confiança?

Eu sempre sigo o conselho de Warren Buffet sobre investimentos: seja ambicioso quando todos estiverem com medo e tenha cautela quando todos forem ambiciosos. A recessão da economia brasileira abriu os olhos do país para aquilo que muitos brasileiros já sabiam: o sistema não estava funcionando.

Aliás, ele estava funcionando apenas para um número limitado de pessoas, por um certo tempo, até que toda a corrupção foi exposta e consequentemente todo o sistema no qual ela operava.

Apesar de todas as desvantagens, cenários como estes trazem as condições perfeitas para o surgimento de ideias novas e criativas, além de encorajar as pessoas mais energéticas do Brasil a serem mais proativas na hora de construir um futuro melhor para suas crianças, ao invés de esperar que os políticos corruptos “resolvam” tudo.

Eu também acredito que esta perda total de confiança no sistema político foi uma etapa necessária para as pessoas finalmente entenderem que a responsabilidade de um futuro melhor depende exclusivamente delas, e por isso acredito que este seja um excelente momento para empreender no Brasil.

Existe alguma área específica da economia na qual você vê oportunidades diferenciadas para os empreendedores brasileiros?

A primeira coisa que eu gostaria de dizer aos empreendedores brasileiros é que o seu melhor mercado é a sua própria casa!

Empreendedores de todo o mundo continuam a cometer o erro de achar que os Estados Unidos possuem o melhor mercado do mundo, quando na verdade o mercado americano deveria ser o último a ser levado em consideração na hora de lançar um produto.

As leis de comércio exterior relativamente restritas do mercado brasileiro – vistas muitas vezes como uma desvantagem – são na verdade uma ótima oportunidade para empreendedores. Com impressoras 3D, biohacking e outras tecnologias descentralizando radicalmente os sistemas de produção, os altos preços de produtos importados no Brasil criam ótimas oportunidades para produtos e serviços nacionais que consigam inovar e manter uma qualidade compatível.

Se iPhones são três ou quatro vezes mais caros no Brasil do que nos Estados Unidos, por que ainda não existe nenhuma empresa que produz smartphones similares no Brasil? Com um mercado extremamente amplo e ávido por produtos de qualidade, os altos preços de produtos importados pode ser uma grande oportunidade para empreendedores dispostos a competir com grandes empresas.

Sua história como empreendedor é bem peculiar. Pode nos contar um pouco como (e por que) você fundou a Exosphere?

Assim como a maioria dos empreendedores, o início da minha jornada com a Exosphere começou comigo dando conta de que algo estava errado com o mundo. No meu caso, eu vi muitas coisas “quebradas” – na verdade, quase tudo estava quebrado.

Eu vi que nossas instituições estavam completamente desorganizadas. Também vi nossas escolas e universidades se tornando cada vez mais obsoletas. Vi nossos governos completamente corruptos – sim, inclusive dos Estados Unidos.

Vi que as instituições religiosas ao redor mundo simplesmente pararam de nutrir e incentivar a saúde espiritual de seus seguidores, tornando-se apenas mecanismos burocráticos que servem suas próprias necessidades.

Vi até mesmo a comunidade científica se tornando corrupta, e agora nós vemos quase que diariamente uma série de disciplinas, faculdades e publicações sendo desacreditadas.

E, mesmo com tantos problemas, o consumismo não parava de aumentar no mundo todo.

Eu sabia que tais problemas eram grandes demais para serem resolvidos por mim sozinho, muito menos por um aplicativo ou produto.

Foi a partir dessa perspectiva que eu criei a Exosphere, um novo modelo que instituição que busca concentrar pessoas para resolver todos estes problemas que simplesmente não podem ser resolvidos por apenas uma pessoa.

E o que você tem a dizer para as pessoas que se identificam com essa visão, mas não possuem a mesma coragem para empreender?

Você já tem todo o potencial e coragem dentro de si mesmo. O que está te impedindo de tomar iniciativa é justamente o fato disso demandar esforço de verdade.

Empreender demanda mudança e melhoria contínua. Demanda que você ignore todas as críticas e, principalmente, as responda através de ações.

Você não precisa encontrar coragem, e sim superar a própria preguiça. Encontre um grupo com o qual você se identifica, que te motive quando estiver desmotivado e celebre com você suas conquistas.

Foque nas ações e não nas palavras.

E para aquelas pessoas que já estão empreendendo, mas se sentem desmotivadas ou incapazes de ter sucesso. Você tem algum conselho?

Não desista. Os casos de sucesso da noite para o dia que vemos na internet ou na mídia são casos raros, de pessoas que tiveram uma baita sorte. A maioria das pessoas bem sucedidas passaram muitos anos, às vezes até décadas, falhando.

Elas foram ridicularizados e ignorados por seus contemporâneos, mas lembrados pela história. Eles acrescentaram algo realmente de valor para a humanidade e coletivamente contribuiram para que nossas vidas, hoje em dia, sejam bem melhores do que seriam sem eles.

Então lembre-se que o seu presente é temporário e o seu passado não é prova de nada. O que você faz hoje é o que realmente importa – e na verdade pode importar muito mais do que você imagina.

Você costuma viajar bastante. No início deste ano mesmo viajou pelo Brasil e por vários países da Europa para falar sobre empreendedorismo, filosofia e assuntos relacionados à Economia Criativa. Na sua opinião, qual a maior diferença do Brasil em relação aos outros países do mundo, quando se trata de empreendedorismo?

Todo lugar do mundo tem suas peculiaridades, mas as condições para empreender no Brasil não são muito diferentes de outros lugares que eu tive a oportunidade de conhecer. Com exceção do Vale do Silício, a maioria dos ecossistemas sofrem bastante com a falta de capital e excesso de regulação e burocracia.

A diferença (e desvantagem) mais significativa que eu vejo no Brasil é uma resistência maior aos empreendedores estrangeiros.

O país precisa atrair mais agressivamente empreendedores e profissionais estrangeiros para produzir uma “reação química” de inovações. Sim, existem muitas pessoas talentosas no Brasil, mas como qualquer outro tipo de reação química, é preciso de um agente catalisador.

E no caso de ciência e inovação, o catalisador sempre vem sob a forma de novas perspectivas e formas de pensar.

A Exosphere está se mudando para o Brasil (Palhoça, SC) e o próximo Exosphere Academy – principal bootcamp da Instituição – já será realizado por aqui. Você pode nos dizer por que decidiu trazer a Exosphere do Chile para o Brasil?

Nós todos estamos extremamente felizes e animados em trazer a nossa “casa” para Santa Catarina, na Cidade Criativa Pedra Branca. Durante os últimos anos viajando pelo Brasil e vários países da Europa eu estive avaliando onde seria a melhor casa para a Exosphere e, tendo visitado Santa Catarina várias vezes neste processo, acabei desenvolvendo um bom relacionamento com os donos e acionistas da Cidade Criativa Pedra Branca.

Como precisávamos nos mudar (apesar de fantástico, o Chile é isolado geograficamente de grande parte dos centros populacionais) e tínhamos certeza de que seríamos muito bem recebidos pelos nossos amigos brasileiros, nos últimos 12 meses essa possibilidade se tornou inevitável.

Além disso, acreditamos que passar algumas semanas à apenas alguns minutos de distância das lindas praias de Florianópolis não será um problema para ninguém!

A Exosphere Academy é um programa que tem sido constantemente adaptado e modificado ao longo dos anos. Você pode nos dizer brevemente quais serão os assuntos tratados no próximo programa que acontecerá em Janeiro?

Seria mais correto dizer que a Exosphere Academy é um programa que está sendo constantemente inovando sua estrutura, experimentando novas alternativas de educação para construir um modelo de aprendizado, pesquisa e aceleração.

Em Janeiro nós teremos grupos dedicados aos estudos da colonização de Marte, Remediação Ambiental (produção de combustível por meio de microbios), Python, biohacking design alternativo, tecnología blockchain, filosofia e muito mais.

O programa terá início no dia 7 de Janeiro e terá duração de oito semanas. Pessoas do mundo todo se encontrarão para trabalhar em projetos dos mais variados tipos e, apesar das aulas serem todas em inglês, os brasileiros interessados serão muito bem vindos!

Nota do Editor: a Exosphere lançou recentemente uma Bolsa de Estudos para brasileiros que desejam se candidatar ao programa Exosphere Academy. Clique aqui para obter mais informações.