Após anos de inatividade decidi que era hora de voltar a desenhar. Eu tinha montes de materiais de desenho, colecionados com o maior carinho, e nada de usá-los. Resolvi que já era mais do que o momento de colocar a mão na massa, mas como?

Do tempo parado ficou um baita bloqueio, perda do traquejo e insegurança. Como sair desta ratoeira? Foi então que, procurando adquirir um bom sketchbook (livro de esboços) eu acabei conhecendo o ilustrador Renato Alarcão (foto) e soube do seu curso, o Diário Gráfico. Salvou a minha vida.

Hoje, não saio de casa sem meu caderno e retomei meu ritmo de desenho, e o melhor, um bom bocado de alegria e prazer e por tabela ainda ajuda bastante na rotina profissional.

Acabei fazendo outros cursos, lá no Marimbondo, o estúdio/escola que ele divide com o calígrafo Cláudio Gil e também com a Rosa Guimarães, sua esposa e sócia na Zoopress, selo que desenvolveram para a produção de sketchbooks e outros trabalhos que envolvem encadernações artesanais e altamente sofisticadas. AO longo desta entrevista você confere alguns dos seus trabalhos. Com a palavra, o Mestre.

A quanto tempo você está no mercado?

Desde 1995, ano em que me formei em Design Gráfico pela UFRJ.

Sempre teve carreira solo?

Posso dizer que sim, apesar de ter tido um único emprego de carteira assinada, que, felizmente durou apenas 3 meses.

Qual o benefício que o sketchbook trouxe para o seu trabalho?

Os sketchbooks tem sido o local onde educo o meu olhar, coleciono o que me interessa visualmente, e, principlamente, funcionam como suporte para experimentações que, muitas vezes, não encontram uso específico na vida profissional. É como um “laboratório de teste” criativo.

O que te levou a ministrar o Diário Gráfico?

Este curso começou quando eu ainda morava nos EUA e, em parceria com algumas ONGs e o YMCA, montamos um programa de artes para crianças. Os participantes aprendiam desde a fazer o papel reclicado, que depois eram encadernados sob forma de um livro (que chamávamos de  “Visual Memoirs”), e, finalmente as crianças traziam de casa suas “memórias” afetivas para serem colecionadas sequencialmente. Os cadernos que elas produziam eram riquíssimos do ponto de vista plástico, e incluiam colagens, pinturas, desenhos, fotografias…Você sabe, qualquer criança com materiais artísticos por perto se esbalda…

As estratégias criativas deste programa geraram resultados tão interessantes que depois as apliquei em um trabalho com um grupo um pouco mais crescido, desta vez jovens na faixa dos 16 aos 18 anos, que haviam tido probelmas com a lei e que, para não passar um tempo na cadeia foram conduzidos a um trabalho comunitário que envolvia a criação de arte pública (fizemos 13 murais juntos). Os resultados com este grupo me animaram a pesquisar o assunto mais a fundo. Encontrei muitos livros interessantes em bibliotecas. Com o tempo, a prática de trabalho com diferentes faixas etárias e experiências de vida, me permitiu aprimorar o programa para o atual formato.

Conseguiria largar o magistério gráfico?

De forma alguma. Ao longo da minha vida de estudante tive grandes mestres, todos artistas excepcionais. Isso me fez entender que o ditado “Quem sabe faz, quem não sabe ensina” é uma frase que só pode ter saído da cabeça de um imbecil. Compartilhar o conhecimento é um gesto de generosidade, e é também sobretudo uma oportunidade para aprender ensinando e, mais ainda,  tomar contato com diferentes formas de ver e pensar. Dar aulas é um dos tripés da minha vida profissional. Faço por paixão mesmo.

Digo sempre e reafirmo, o curso salvou a minha vida. Você consegue perceber o tanto de felicidade que o curso produz nos alunos?

Rapaz, vão achar que estou te pagando mensalão pra escrever isso, hahaha!

Tenho tido muitas alegrias no Diário Gráfico, principalmente em saber que, para muitas pessoas as estratégias criativas com as quais tomaram contato no curso acabaram fazendo delas pessoas mais livres, menos preocupadas com o resultado, e mais interessadas em curtir o processo. É um conceito muito bem amarrado naquela frase do Dan Eldon, “A jornada é o próprio destino”.

É importante deixar claro que que nem todos entendem completamente o que propomos no curso. Tive um aluno certa vez (ele era instrutor de Corel Draw num Senac desses), que entrou sem entender e saiu mais perdido ainda. Ele nunca havia segurado em um pincel, e a falta de controle sobre os resultados o paralisaram, segundo me disse.  Uma menina certa vez perguntou em aula o que fazer com aquelas colagens, “aquelas viagens” (aspas dela…)_, como ela conseguiria aplicar aquilo num projeto para um cliente. Eu simplesmente respondi: “isto não é para o seu cliente, é para você.

É necessário saber desenhar ou ser ilustrador para fazer o curso?

Não há nenhum pré-requisito para fazer o curso. Já tive alunos que eram atores, jornalistas, fotógrafos e atualmente tenho uma aluna que é bióloga eque  está fazendo trabalhos muito bonitos.

Como um Diário Gráfico pode ajudar no dia-a-dia de um profissional de criação?

Primeiramente é importante frisar que não basta ter um caderno. É importante que isto se torne uma prática descompromissada, constante e sem preocupação com o resultado. É justamente quando o hábito se enraiza, que a pessoa se torna mais curiosa, mais criativa e “last but not least” passa a conhecer melhor aquilo que atrai seu olhar.

Obviamente conheço muita gente que passou pelo curso e que usa seus cadernos como matriz de idéias mesmo, escaneando dali elementos gráficos, texturas, ou então encontrando naquelas páginas a centelha que vai dar origem a algo mais específico para as necessidades de um projeto.
Sei também  que pelo menos 3 ex-alunos meus fizeram seu TCC sobre cadernos e sketchbooks

A lista ligada ao curso é muito bacana, o que você poderia dizer sobre o perfil dos assinantes e qual o maior benefício usufruido por eles?

Fazem parte da lista todos aqueles que participaram dos cursos realizados no Estúdio Marimbondo (no Rio) e nas oficinas itinerantes (chamadas de Diário Gráfico “Crash”) realizadas em São Paulo, Porto Alegre, Passo Fundo,  Recife, Fortaleza, Manaus e Brasília. Temos também convidados escolhidos pela qualidade de seus portfolios e pelo “notório saber”.

A lista do Diário Gráfico foi fundada em Agosto de 2004, e nestes 4 anos, tem sido o local onde fazemos intercâmbio de idéias, a discussão de processos de trabalho e compartilhamos aprendizados que enriquecem a experiência de todos.  Importante mencionar também a ampliação da rede de contatos profissionais, já que temos constantemente ofertas interessantes de empregos, estágios e frilas.

Por tratarmos de assuntos bem específicos nas artes visuais, e pelo nível intelectual dos seus colaboradores mais habituais, a lista do Diário Gráfico tem recebido elogios e a todo momento recebe novos pedidos de adesão.

Uma palavra de mestre para quem está ingressando ou deseja ingressar na Carreirasolo de ilustrador:

Desenhe muito e leia mais ainda. Vá no site www.guiadoIlustrador.com.br, criado pelo colega Ricardo Antunes (membro da lista do D.G.) e baixe o PDF. As instruções ali valem por uma aula sobre a profissão. E, claro, visite o site da SIB, sociedade dos Ilustradores do Brasil (www.sib.org.br)

Eu fiz os dois módulos do curso Diário Gráfico e outros cursos no Estúdio Marimbondo, eu recomendo muito e, além do conteúdo maravilhoso e da permissão para assinar a ótima lista, puder fazer amizades extraordinárias.

Fico feliz que você tenha curtido os cursos. Você tem sido um participante bastante assíduo da lista do Diário Gráfico e suas considerações têm sido sempre muito relevantes. Eu agradeço por isso.

Renato, não há de quê, e, em verdade, a gratidão é minha. Muito obrigado!

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