Postura profissional, comprometimento e compromisso com conteúdo antes de modelo de negócios. Três das muitas coisas que faltam para a podosfera nacional.

O podcast parece estar chegando finalmente na maturidade enquanto mídia, muitos veículos já noticiam o quanto ela está se tornando presente na vida… dos americanos. Enquanto isso no Brasil ainda citam o podcast como assunto de iniciados.

Por que será que isso acontece? Será realmente possível viver de podcast no país onde a gente tem dificuldade em viver até mesmo através de profissões clássicas e melhor recompensadas?

Para entender o cenário dos podcasts no país

Enquanto Serial, o podcast de maior sucesso nos estados unidos tem 3.4 milhões de ouvintes por episódio, o programa de maior expressão nacional, o Nerdcast tem 750 mil downloads por episódio. Além disso, o mercado americano é muito maior e mais diverso com dezenas de programas, atingindo a marca de mais de 500 mil ouvintes por episódio, enquanto no Brasil os podcasts a atingirem este patamar não enchem uma mão.

Sarah Koenig (esquerda) e sua produtora Dana Chivvis em uma sessão de gravação do Serial. Programa chegou até mesmo a ser comentado em talk shows nos EUA.

Sarah Koenig (esquerda) e sua produtora Dana Chivvis em uma sessão de gravação do Serial. Programa chegou até mesmo a ser comentado em talk shows nos EUA.

De fato o podcast ainda é uma mídia de nicho no Brasil, coisa de early adopters. O porquê isso acontece têm diversas razões. Ao contrário dos EUA, os usuários de iPhone são poucos no país e as facilidades da plataforma não são aproveitadas.

Para se tornar um consumidor frequente se exige que as pessoas entendam conceitos complexos como feed, código responsável pela atualização constante dos conteúdos. Mas ainda há um outro fator que na minha opinião, é essencial para vencermos a barreira do nicho:  a profissionalização dos produtores deste formato.

Pode parecer duro o que eu vou dizer mas a grande maioria dos podcasts nacionais estão bem longe de se tornarem profissionais. E isso tem muito mais a ver com postura do que com dinheiro.

Mas, afinal, o que é um  podcast profissional?

Tradicionalmente, definimos algo como profissional, quando o objeto em questão se torna um ofício remunerado, basicamente, quando paga as contas. Por outro lado, muitos dizem que algo é profissional quando atingiu um nível de excelência exemplar.

Os dois conceitos são complementares para o caso do podcast. Para nos tornarmos profissionais precisamos melhorar nossa excelência e ganhar dinheiro com nossos programas.

Isso vai na contramão do que a comunidade normalmente prega. É comum ouvir frases como “se você pensa em podcast pra ganhar dinheiro você está errado”. Para sermos profissionais precisamos superar estas afirmações e pensar sim em “como ganhar dinheiro com podcast”.

Atenção aqui, pensar em monetizar seu podcast não é o mesmo que “ganhar dinheiro fácil”, ok? Na verdade, se você pensa em tornar seu podcast profissional, você é um empreendedor que tem um negócio, e seu trabalho será enorme, assim como seu comprometimento.

Terá que tomar decisões fruto de análises frias, calcular o retorno de cada investimento, ter compromisso, disciplina e não deixar que você, sua preguiça ou família, sejam barreiras. Resumindo em uma palavra: postura profissional.

Outro dia, propus uma metodologia de produção na comunidade de Podcasters no Facebook. As reações foram variadas.

No final de abril de 2016, rolou uma proposta metodologia de produção na comunidade de Podcasters no Facebook. As reações foram variadas.

No mundo dos podcasts, o que separa o hobbista do profissional é a postura!

Definir este comportamento não é uma tarefa fácil, principalmente por envolver muitas coisas. Estou falando desde mudar a forma de pensar até como você se apresenta nas redes sociais.

Primeiro, se você trabalha com podcast você é um comunicador. Isso significa que você precisa ter responsabilidade sobre o que você fala, você deve ter cuidado ao lidar com pessoas, não fazer acusações nem afirmações descabidas ou preconceituosas. Saiba que a sua voz ecoa e que seja lá qual for o modelo de negócios do seu podcast ninguém quer se relacionar com alguém intempestivo, volátil, que não transmite segurança.

Segundo você serve ao podcast e não é servido por ele, ao contrário do hobby em que você faz algo pelo prazer que isso lhe traz. Em uma relação profissional essa balança se inverte: você faz algo porque tem um compromisso firmado, porque deu sua palavra e espera conquistar a confiança.

Isso significa que um podcast precisa ter frequência, mas não só isso, a qualidade do programa precisa ser garantida, tenha um fluxo de trabalho que te permita cumprir metas com a qualidade mínima determinada. E conforme seu podcast cresce o nível de exigência deve crescer junto, as pesquisas precisam se tornar mais profundas, a edição mais cuidadosa, os equipamentos melhorados.

Saiba que todo negócio empresarial é um organismo dinâmico, o que significa que ele não se mantêm parado, se você não está crescendo, você está regredindo, você precisa ter metas de crescimento e avaliações constantes. Ter planos de ação, obstáculos identificados e resultados mensuráveis.

Quando falamos em análise e avaliações temos novamente uma gama enorme de questões a serem abordadas, A qualidade do seu áudio está satisfatória? O ritmo do seu podcast emprega a sua personalidade e satisfaz o seu público? Você tem diferenciais? O seu programa é bom?

Aqui precisamos ser objetivos e deixar nosso ego de lado, se seu programa é só mais um papo de bar, porque eu vou escutar ele ao invés do podcast líder no tema? Você é super especialista no tema, mas você se comunica bem? Você não é chato? Você articula bem as palavras? Seja rigoroso, pense que você é um profissional que concorre com outros comunicadores então você precisa no mínimo ser tão bom quanto os âncoras dos telejornais de prestígio.

Então, depois de pensar e praticar tudo isso, você chega finalmente à questão da monetização.

Não pense apenas em veicular spot publicitário, pense fora da caixa, desenvolva um modelo de negócios sustentável, que seja realista com as suas possibilidades. Analise custos, veja o quanto você precisa ganhar e trace um prazo pra atingir esta meta.

Ivan-Mizanzuk

Ivan Mizanzuk tem ministrado cursos de storytelling para podcasters. Veja: https://goo.gl/tqLjsc

Não vou ficar dando exemplo de modelos de negócio aqui, você precisa descobrir o que funciona pra você, mas veja quem já ganha dinheiro com isso e descubra se algum modelo pode ser aplicado ao seu podcast, caso negativo, como criar um novo modelo de negócios? Saiba vender, saiba como prospectar. Criar um mídia kit pode ser importante não apenas para que você possa oferecer ele a seus anunciantes, mas para você determinar a missão e o propósito da sua empresa.

Neste momento quanto mais podcasts profissionais tivermos, maior será nosso mercado e mais sadio será o seu empreendimento. Pense em mudar de postura e saiba que ninguém lhe deve nada. É comum ouvir reclamações no meio podcastal de que os grandes podcasts não ajudam o iniciante.

Mas antes de culpar os programas já reconhecidos, olhe pra você e se pergunte o que você tem a oferecer a eles? Afinal, isso é um negócio e você precisa ter qualidades pra trocar. Quando você – ou a sua marca – são um bom negócio,  as pessoas irão querer se relacionar com você. Não exija nada: torne-se atraente. Tenha Postura profissional.

Isto não significa que eu tenha algo contra o hobby e o podcast como diversão entre amigos, mas acredito que se quisermos levar a mídia para outro patamar é importante pensarmos sobre esta mudança de postura.

O caminho não é fácil, a minha experiência com o Caixa de Histórias está caminhando, estou fechando os primeiros acordos comerciais agora e ainda há muito a ser feito, avaliado e melhorado.

Mas eu acredito que se tivermos a disposição de alterar a nossa realidade, devemos encarar isso de frente, na busca por uma realidade mais acolhedora e profissional para a mídia.

===== Nota do editor =====

Como nasceu este artigo e por que ele está aqui.

O Paulo Henrique de Carvalho criou um dos podcasts mais interessantes dos últimos dois anos, o Caixa de Histórias. Com uma ideia simples e muito bem executada – a leitura dramatizada de grandes peças da literatura -, tem atingido cada vez mais ouvintes, incluindo este editor que voz fala. Dá só uma ouvida neste episódio sobre o livro Cem Anos de Solidão: 

Nós começamos a trocar uma ideia depois que criei o slack PodcastersBrasil, para reunir a galera interessada em fomentar e expandir a penetração deste formato de comunicação no país. Na verdade, o papo todo levou poucas horas entre criar a comunidade e começarmos a interagir. Alguma dúvida que a galera é motivada?